Voz: Rafael Tahan Franzoni
Bruno Tolentino
Ars poetica?
Essas colheitas,
as que procuras
entre as alturas
as mais perfeitas,
são bem mais puras
do que suspeitas...
É em vão que deitas
mãos imaturas
a essa distância:
fio por fio
tocas a ânsia
de um fogo frio,
não a elegância
desse vazio.
II
Se queres, canta!
Abre cavernas,
enche a garganta,
levanta as ternas,
doces lanternas
do canto e espanta
o escuro! Hibernas
sozinho, e é tanta
a escuridão
entre a laringe
e um coração,
que alma finge
cantar, mas não:
canta outra esfinge
III
Planta, ó cantor,
tuas palavras
entre o esplendor
perdidos e as lavras
mudas do amor.
Deixa o que gravas
no ar, e a dor
com que te cravas
tantos punhais;
larga essa lida,
tenta bem mais:
deixa que a vida
viva ferida,
mas viva em paz.
Voz: Rafael Tahan Franzoni
Alberto da Cunha Melo
Yacala
0032
Pensa no fim, na foz do fogo,
sem esperança, ao fim da tarde,
para furtar-se do pavor
que lhe desperta a eternidade;
enquanto o faz, não sabe mais
localizar em seus anais
onde essa agonia termina,
depois do episódio menor
da vida, este sopro de cinza,
depois deste sol desertor
que não tem mais onde se pôr.
Voz: Matheus Guménin Barreto
Jorge de Lima
Solilóquio sem fim e rio revolto
Solilóquio sem fim e rio revolto -
mas em voz alta, e sempre os lábios duros
ruminando as palavras, e escutando
o que é consciência, lógica ou absurdo.
A memória em vigília alcança o solto
perpassar de episódios, uns futuros
e outros passados, vagos, ondulando
num implacável estribilho surdo.
E tudo num refrão atormentado:
memória, raciocínio, descalabro...
Há também a janela da amplidão;
e depois da janela esse esperado
postigo, esse último portão que eu abro
para a fuga completa da razão.