sábado, 10 de agosto de 2013

Bruno Tolentino - Ars poetica?


Voz: Rafael Tahan Franzoni

Bruno Tolentino 
Ars poetica?

Essas colheitas,
as que procuras
entre as alturas
as mais perfeitas,
são bem mais puras
do que suspeitas...
É em vão que deitas
mãos imaturas
a essa distância:
fio por fio
tocas a ânsia
de um fogo frio,
não a elegância
desse vazio.

II

Se queres, canta!
Abre cavernas,
enche a garganta,
levanta as ternas,
doces lanternas
do canto e espanta
o escuro! Hibernas
sozinho, e é tanta
a escuridão
entre a laringe
e um coração,
que alma finge
cantar, mas não:
canta outra esfinge

III

Planta, ó cantor,
tuas palavras
entre o esplendor
perdidos e as lavras
mudas do amor.
Deixa o que gravas
no ar, e a dor
com que te cravas
tantos punhais;
larga essa lida,
tenta bem mais:
deixa que a vida
viva ferida,
mas viva em paz.

domingo, 4 de agosto de 2013

Alberto da Cunha Melo - Yacala / 0032


Voz: Rafael Tahan Franzoni

Alberto da Cunha Melo
Yacala

0032

Pensa no fim, na foz do fogo,
sem esperança, ao fim da tarde,
para furtar-se do pavor
que lhe desperta a eternidade;

enquanto o faz, não sabe mais
localizar em seus anais

onde essa agonia termina,
depois do episódio menor
da vida, este sopro de cinza,

depois deste sol desertor
que não tem mais onde se pôr.

sábado, 3 de agosto de 2013

Jorge de Lima - Solilóquio sem fim e rio revolto




Voz: Matheus Guménin Barreto

Jorge de Lima
Solilóquio sem fim e rio revolto

Solilóquio sem fim e rio revolto -
mas em voz alta, e sempre os lábios duros
ruminando as palavras, e escutando
o que é consciência, lógica ou absurdo.

A memória em vigília alcança o solto
perpassar de episódios, uns futuros
e outros passados, vagos, ondulando
num implacável estribilho surdo.

E tudo num refrão atormentado:
memória, raciocínio, descalabro...
Há também a janela da amplidão;

e depois da janela esse esperado
postigo, esse último portão que eu abro
para a fuga completa da razão.