quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Pedro Augusto Pinto - Mea culpa



Voz: Artur Mattar


Pedro Augusto Pinto
Mea culpa

As mãos que teciam
o dia
onde estão?
Onde estarão, que a tarde desfaz-se
e nada se faz?

Talvez tenha uma esperança
jogada em alguma gaveta,
gravatas, remédios, insônia,
algum desses bolsos
mas qual?

Debaixo de cada pedra
vive sempre um animal.
Talvez nocivo, mas vive,
e sangra e então

na boca de toda pedra
há sempre três vezes o "não".
Não sei, não creio, senhor, perdoa
minha doença
amanhã vou ao médico
saber onde estão

sobre a mesa, no bolso, na bolsa
vendidas a meio milhão!

Dou-lhe uma!
Dou-lhe duas!

Dou-lhe não.

domingo, 11 de outubro de 2015

Rafael Tahan - Segredo


Vídeo: Caio Augusto Leite

Rafael Tahan
Segredo

Inscrito sobre o papel
atrás de todas as dobras
possíveis sobre carradas de
terra camadas e mais camadas
de tempo incrustado na fímbria
– situada ao mesmo plano
do pé – da montanha só que
mais pro centro, à medida de
um raio:

aquele que foge ao alcance
dos olhos, esfria
à sombra do tempo
aquele: é o esquecido
dele definitivamente
não me lembro.

Este, o segredado,
é, lá fora,
montanha posta
a encobrir seu motivo.

sábado, 10 de outubro de 2015

Carlos Drummond de Andrade - Explicação



Voz: Pedro Augusto Pinto

Carlos Drummond de Andrade
Explicação

Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo o mundo tem sua cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de folha de flandres,
folha de taioba, pouco importa: tudo serve.

Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos
é que faço meu verso. E meu verso me agrada.

Meu verso me agrada sempre...
Ele às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota,
mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota.
Eu bem me entendo.
Não sou alegre. Sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu país,
[esta sombra mole, preguiçosa.
Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.

Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,
de repente ouço a voz de uma viola...
saio desanimado.
Ah, ser filho de fazendeiro!
À beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrego vagabundo,
é sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.

E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.
Aquela casa de nove andares comerciais
é muito interessante.
A casa colonial da fazenda também era...
No elevador penso na roça,
na roça penso no elevador.

Quem me fez assim foi minha gente e minha terra
e eu gosto bem de ter nascido com essa tara.
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
lê o seu jornal, mete a língua no governo,
queixa-se da vida (a vida está tão cara)
e no fim dá certo.

Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Carlos Drummond de Andrade - Conclusão


Voz: Rafael Tahan


Carlos Drummond de Andrade
Conclusão

Os impactos de amor não são poesia
(tentaram ser: aspiração noturna).
A memória infantil e o outono pobre
vazam no verso de nossa urna diurna.

Que é poesia, o belo? Não é poesia,
e o que não é poesia não tem fala.
Nem o mistério em si nem velhos nomes
poesia são: coxa, fúria, cabala.

Então, desanimamos. Adeus, tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido,
resta a alegria de estar só, e mudo.

De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?

domingo, 20 de setembro de 2015

Bruno F. Rosa - A um poeta morto




Voz: Matheus Guménin Barreto

Bruno F. Rosa
A um poeta morto


Um poema ficou no ar
esperando por ser escrito,
um poema que resumiria
sua vida e obra e seu sentido.

Um poema que seria o fecho
do que escreveu em tantos livros
e sem saber o procurava
em sua obra e na dos amigos.

Um poema que seria o último
do último do último livro
no qual repousasse a palavra
à sombra de seu próprio mito.

Um poema ficou no ar
e esse nunca será escrito:
estava grafado na nuvem,
desfez-se num céu amplo e limpo.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Matheus Guménin Barreto - Fala o silêncio


Vídeo: Caio Augusto Leite

Matheus Guménin Barreto
Fala o silêncio

1.
O dia arrasta os seus pés,
seus pés o dia arrasta.
Passamos nós pelos dias?
                    Ele passa?

O dia arrasta os seus pés,
seus pés o dia arrasta.
Arrasta ele acaso o homem?
                    Também passa?

O homem passa, e o dia,
o dia passa e o homem.
Será que antes de partir
                    terão nome?


2.
A quina da mesa escura
esconde silêncios mil.
Esconde aquilo que há
                    ou partiu.

Atrás desta geladeira
espia, branco, o silêncio.
Espia o que foi e veio
                    em seu seio.

Ali no chão o tapete
lição de pouco se ser.
Pisado e humilde aprende
                    a esquecer.

E o homem? e essa mulher?
Andando assim, tão distantes
igualmente do futuro
                    e do antes.


3.
Assim reclamamos nós
direito sobre o que há.
Pedimos posse do mundo.
                    Mas dará?

Dará o mundo o que houve
e há e o que está pra haver?
O homem sabe o que quer?
                    Sabe ter?

E se lhe pedimos nós
nós mesmos? Ele nos dá.
Mas dá já na expectativa
                   de tomar.


4.
À noite, às vezes, nos cantos
daquilo a que chamam casa,
o homem às vezes topa
                    com a sua cara.

A andar sonâmbulo e simples
por entre o que já comprou,
pergunta-se sem perguntas:
                    Quando sou?

Não sabe o que é o mundo.
E existe um mundo a saber?
Ou será que o mundo forma-se
                    de esquecer?


5.
Já sabe ele ser? Não sabe.
Se soube, desaprendeu.
Será que algum dia o homem
                    é só seu?

sábado, 12 de setembro de 2015

Carlos Drummond de Andrade - Morte do Leiteiro




Voz: Rafael Tahan


Carlos Drummond de Andrade
Morte do Leiteiro


Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.

Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro.
morador na Rua Namur,
empregado no entreposto
Com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro…
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada.
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue… não sei
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Caio Augusto Leite - Repetição dos pães


Voz: Rafael Tahan


Caio Augusto Leite
Repetição dos pães


"O que se prende à sua via, perdê-la-á; e o que perder a sua vida por meu amor, achá-la-á" - Mateus 10: 39



Repito não por falta do que dizer, mas para que o que foi dito continue dito. Repito para que dure. Como se envolvesse a pedra com pedra: para que mais pedra seja. Para que não se perca ao vento a pedra que rola a montanha. Só há lógica naquilo que existe ao toque da mão: a ideia sempre foge. Digo a ideia para que seja mais que ideia, seja ato. O ato se concreta no espaço. É no espaço que tudo é. Deus é o espaço em que habito. Digo Deus para que ele seja. Se não fosse o que digo, nada poderia ser. E nada poderia dizer mais. É um círculo fatal. E perfeito. Enquanto falo, crio, enquanto crio, falo. E tudo que falo se cria, e tudo que é criado é falado depois por mim. Num jogo de vozes ativas e passivas que se modulam em verbos na frase cíclica. Eu amo, pois há amor, e tendo amor posso ser amado. Por isso repito. Repiso os passos que já pisei para que continue a existir caminho: para os que vêm depois de mim. A estrada permanece. Como já permaneceu antes por alguém ter pisado nela antes de eu chegar. Esse pequeno parágrafo é uma pedra que se retirou de um grande monte. Uma lasca do que é eterno. É a parte de um todo profundo e sólido. É um fiapo do manto do Deus impenetrável, intocável, invisível. Essa pedra-palavra-parágrafo. Aquela que jogamos na superfície lisa de um lago e que se espalha em ondas concêntricas: tudo é concêntrico. Viemos do pó da pedra, ao pó da pedra voltaremos. Por mais que se fuja de casa. O centro das ondas que se espalham, cada vez mais distante do ponto em que a pedra afundou. Mas até essas ondas se reduzem e retornam ao ponto mínimo de começo. Repito para que caia a pedra. Essa jornada é sempre de mim para mim mesmo. No fim, a busca é daquilo mesmo que já estava. Então não é busca. É saudade. Sentindo saudade do que foi deixado, sabemos que aquilo deixado era o que se buscava. Procuro a minha mais última saudade: naquele mínimo coração está minha vida toda condensada. Enquanto não acho repito a pedra que me faz onda no lago eterno. Sobre as águas paira o Grande Espírito. Tenho fé no recomeço de mim. Quando eu estiver o mais longe que puder daqui, terei atravessado a película de meu rosto; chegando ao que me é alheio, chegarei ao cheiro singular do suor em minhas axilas, meu cheiro de homem cansado. Então retornarei, encolhendo feito as ondas do lago. Não triste. Não resignado. Mas feliz. Por ter perdido, encontrarei. Por ter deixado, terei. De novo menino no centro perfeito onde só cabe a palavra Eu. Até lá a vida seria ânsia. Náusea. Inquieto que sou. Preciso lançar a pedra com força e dor. A maior pedra que puder. Para que me lancem as ondas para o mais distante de meu próprio pensamento. Por isso repito. Um dia um Homem repetiu os pães e os peixes e matou a fome repartida por tantos. Repito. Repito. Repito. Repito para matar a grande fome. Repito até que perca meu nome o significado. Até que seja vazio um nome. Até que suma toda água do tempo. Para que depois eu volte a mim com toda força e me preencha somente daquilo que me é.

Matheus Guménin Barreto - O canto


Voz: Rafael Tahan


Matheus Guménin Barreto
O canto

[Quisera não nascer homem
ou, melhor, não ter nascido,
se ser é se perder sempre
e nascer é nunca ter sido]

Olhai o galho à janela.
É duro, e de morrer não nasce
e sem nascer e sem morrer deita
                                [à eternidade
a face.

Olha o gato esquecido de nascer.
Olha o cão olha o peixe olha a ara-
nha.
Esquecidos de nascer
[nascem
e perduram no tempo comprido.

[Quisera não nascer homem
ou, melhor, não ter nascido,
se ser é se perder sempre
e nascer é não ter existido]