quinta-feira, 7 de novembro de 2013

João Cabral de Melo Neto - Antiode


Voz: Rafael Tahan Franzoni

João Cabral de Melo Neto
Antiode

A

Poesia te escrevia:
flor! conhecendo
que és fezes. Fezes
como qualquer.
gerando cogumelos
(raros, fragéis, cogu-
melos) no úmido
calor de nossa boca.
Delicado, escrevia:
flor! (Cogumelos
serão flor? Espécie
estranha, espécie
extinta de flor, flor
não de todo flor,
mas flor, bolha
aberta no maduro)
Delicado, evitava
o estrume do poema,
seu caule, seu ovário,
suas intestinações.
Esperava as puras,
transparentes florações,
nascidas do ar, no ar,
como as brisas.

B

Depois, eu descobriria
que era lícito
te chamar: flor!
(Pelas vossas iguais
circunstâncias? Vossas
gentis substâncias? Vossas
doces carnações? Pelos
virtuosos vergéis
de vossas evocações?
Pelo pudor do verso
- pudor de flor -
por seu tão delicado
pudor de flor,
que só se abre
quando a esquece o
sono do jardineiro?)
Depois eu descobriria
que era lícito
te chamar: flor!
(flor, imagem de
duas pontas, como
uma corda). Depois
eu descobriria
as duas pontasda flor:
as duas
bocas da imagem
da flor: a boca
que come o defunto
e a boca que orna
o defunto com outro
defunto, com flores,
- cristais de vômito.

C

Como não invocar o
vício da poesia: o
corpo que entorpece
ao ar de versos?
(Ao ar de águas
mortas, injetando
na carne do dia
a infecção da noite).
Fome de vida? Fome
de morte, frequentação
da morte, como de
algum cinema.
O dia? Árido.
Venha, então, a noite,
o sono. Venha,
por isso, a flor.
Venha, mais fácil e
portátil na memória,
o poema, flor no
colête da lembrança.
Como não invocar,
sobretudo, o exercício
do poema, sua prática,
sua lânguida horti-cultura?
Pois estações
há, do poema, como
da flor, ou como
no amor dos cães;
e mil mornos
enxertos, mil maneiras
de excitar negros
êxtases, e a morna
espera de que se
apodreça em poema,
prévia exalação
de alma defunta.

D

Poesia, não será esse
o sentido em que
ainda te escrevo:
flor! (Te escrevo:
flor! Não uma
flor, nem aquela
flor-virtude - em
disfarçados urinóis).
Flor é a palavra
flor, verso inscrito
no verso, como as
manhãs no tempo.
Flor é o salto
da ave para o vôo;
o salto fora do sono
quando seu tecido
se rompe; é uma explosão
posta a funcionar,
como uma máquina,
uma jarra de flores.

E

Poesia, te escrevo
agora: fezes, as
fezes vivas que és.
Sei que outras
palavras és, palavras
impossíveis de poema.
Te escrevo, por isso,
fezes, palavra leve,
contando com sua
breve. Te escrevo
cuspe, cuspe, não
mais; tão cuspe
como a terceira
(como usá-la num
poema?) a terceira
das virtudes teologais.

sábado, 10 de agosto de 2013

Bruno Tolentino - Ars poetica?


Voz: Rafael Tahan Franzoni

Bruno Tolentino 
Ars poetica?

Essas colheitas,
as que procuras
entre as alturas
as mais perfeitas,
são bem mais puras
do que suspeitas...
É em vão que deitas
mãos imaturas
a essa distância:
fio por fio
tocas a ânsia
de um fogo frio,
não a elegância
desse vazio.

II

Se queres, canta!
Abre cavernas,
enche a garganta,
levanta as ternas,
doces lanternas
do canto e espanta
o escuro! Hibernas
sozinho, e é tanta
a escuridão
entre a laringe
e um coração,
que alma finge
cantar, mas não:
canta outra esfinge

III

Planta, ó cantor,
tuas palavras
entre o esplendor
perdidos e as lavras
mudas do amor.
Deixa o que gravas
no ar, e a dor
com que te cravas
tantos punhais;
larga essa lida,
tenta bem mais:
deixa que a vida
viva ferida,
mas viva em paz.

domingo, 4 de agosto de 2013

Alberto da Cunha Melo - Yacala / 0032


Voz: Rafael Tahan Franzoni

Alberto da Cunha Melo
Yacala

0032

Pensa no fim, na foz do fogo,
sem esperança, ao fim da tarde,
para furtar-se do pavor
que lhe desperta a eternidade;

enquanto o faz, não sabe mais
localizar em seus anais

onde essa agonia termina,
depois do episódio menor
da vida, este sopro de cinza,

depois deste sol desertor
que não tem mais onde se pôr.

sábado, 3 de agosto de 2013

Jorge de Lima - Solilóquio sem fim e rio revolto




Voz: Matheus Guménin Barreto

Jorge de Lima
Solilóquio sem fim e rio revolto

Solilóquio sem fim e rio revolto -
mas em voz alta, e sempre os lábios duros
ruminando as palavras, e escutando
o que é consciência, lógica ou absurdo.

A memória em vigília alcança o solto
perpassar de episódios, uns futuros
e outros passados, vagos, ondulando
num implacável estribilho surdo.

E tudo num refrão atormentado:
memória, raciocínio, descalabro...
Há também a janela da amplidão;

e depois da janela esse esperado
postigo, esse último portão que eu abro
para a fuga completa da razão.

domingo, 28 de julho de 2013

Cecília Meireles - 2º Motivo da rosa


Voz: Matheus Guménin Barreto

Cecília Meireles
2º Motivo da rosa

A Mário de Andrade

Por mais que te celebre, não me escutas, 
embora em forma e nácar te assemelhes
à concha soante, à musical orelha
que grava o mar nas íntimas volutas.

Deponho-te em cristal, defronte a espelhos,
sem eco de cisternas ou de grutas...
Ausências e cegueiras absolutas
oferece às vespas e às abelhas.

E a quem te adora, ó surda e silenciosa,
e cega e bela e interminável rosa,
que em tempo e aroma e verso te transmutas!

Sem terra nem estrelas brilhas, presa
a meu sonho, insensível à beleza
que és e não sabes, porque não me escutas...

Cláudio Neves - Dizeres


Voz: Matheus Guménin Barreto

Cláudio Neves
Dizeres

Diz-se morte como quem diz manhã,
maçã, aquário, flauta, borboleta.

(Talvez que, quando dita, se completa
ou se aniquila quando som de letra.)

Morte se diz de qualquer fim de prazo,
qualquer acaso do caminho ou da vontade,

diz-se das ondas quando dão na praia
ou se nos falha um plano, uma trapaça.

Morte se diz como diz contrato,
senhorio, despejo, nova casa,

diz-se de um rio quando encontra o mar
e de uma rua quando dá em nada.

(Talvez que, com dizê-la, assim se evita
seu centro de silêncio, seu oco de sentido.)

Mario Quintana - O Gato


Voz: Rafael Tahan Franzoni

Mario Quintana
O Gato

O gato chega à porta do quarto onde escrevo.
Entrepara... hesita... avança...

Fita-me.
Fitamo-nos.

Olhos nos olhos...
Quase com terror!

Como duas criaturas incomunicáveis e solitárias
Que fossem feitas cada uma por um Deus diferente.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Sophia de Mello Breyner Andresen - Porque


Voz: Matheus Guménin Barreto

Sophia de Mello Breyner Andresen
Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Ferreira Gullar - Perplexidades


Voz: Rafael Tahan Franzoni

Ferreira Gullar
Perplexidades

a parte mais efêmera

                    de mim

é esta consciência de que existo

e todo o existir consiste nisto

é estranho!

e mais estranho

                    ainda

        me é sabê-lo

e saber 

que esta consciência dura menos

que um fio de meu cabelo

e mais estranho ainda

                    que sabê-lo

é que

                         enquanto dura me é dado

        o infinito universo constelado

        de quatrilhões e quatrilhões de estrelas

sendo que umas poucas delas

posso vê-las

                    fulgindo no presente do passado

domingo, 21 de julho de 2013

Bruno Tolentino - O Bicho-papão




Voz: Rafael Tahan Franzoni

Bruno Tolentino 
O Bicho-papão

Tenho medo da emoção,
mas tenho mais medo ainda
da alma, essa assombração
que depois que o corpo finda,

mais feia ainda, ou mais linda,
enfrenta a ressurreição.
Tenho medo da ilusão
da brincadeira que brinda

buquês fantasmais na mão
de espectros que vivem à míngua
de palavras, do que a língua

diz como consolação...
Mas tenho mais medo ainda
da última aparição!

sábado, 20 de julho de 2013

Jorge de Lima - O céu jamais me dê a tentação funesta


Voz: Matheus Guménin Barreto

Jorge de Lima
O céu jamais me dê a tentação funesta

O céu jamais me dê a tentação funesta
de adormecer ao léu, na lomba da floresta,

onde há visgo, onde certa erva sucosa e fria,
carnívora decerto o sono espia.

Que culpa temos nós dessa planta da infância,
de sua sedução, de seu viço e constância?

Minha cabeça estava em pedra, adormecida,
quando me sobreveio a cena pressentida.

Em sonâmbulo arriei as mãos e os pés culpados
dos passos e do gesto em vão desperdiçados.

Despi-me de outros bens, de glória mais modesta:
restava-me por fim a minha pobre testa

confundida com a pedra, em meio da floresta.
Que doces olhos têm as coisas simples e unas

onde a loucura dorme inteira e sem lacunas!
Agora posso ver as mãos entrecruzadas

e as plantas de meus pés nas entranhas amadas,
nesse início que é a clara insônia verdadeira.

Ó seres primordiais que sois testa e viseira,
restituo-me em vós, sangue e máscara vividos,

desejo de esquecer tempo e espaço existidos;
e em vós e em vossa paz meus solilóquios para-os,

penetro-me do Verbo em seus silêncios claros,
invisto-me de vós, vossa fronte me espia

através dessa pedra em que nasce o meu dia.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Manuel Bandeira - Poema só para Jaime Ovalle


Voz: Professor. Dr. Nelson Luis Barbosa

Manuel Bandeira
Poema só para Jaime Ovalle

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Adélia Prado - Ensinamento


Voz: Professor. Dr. Nelson Luis Barbosa

Adélia Prado
Ensinamento

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Manuel Bandeira - Ubiquidade



Voz: Matheus Guménin Barreto


Manuel Bandeira 

Ubiquidade


Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.

Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.

Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das cousas,
Serás no fim do universo.)

Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Carlos Drummond de Andrade - Ausência


Voz: Victor Bhering Drummond‏

Carlos Drummond de Andrade
Ausência


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência. 
A ausência é um estar em mim. 
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus
[braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Carlos Drummond de Andrade - O Sobrevivente


Voz: Professor. Dr. Nelson Luis Barbosa
Carlos Drummond de Andrade
O Sobrevivente
Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.
Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.

   Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.
Os homens não melhoram
e matam-se como percevejos.
Os percevejos heróicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.


(Desconfio que escrevi um poema.)

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Carlos Drummond de Andrade - Eterno


Voz: Rafael Tahan Franzoni

Carlos Drummond de Andrade
Eterno

E como ficou chato ser moderno. 
Agora serei eterno.

Eterno! Eterno!
O Padre Eterno,
a vida eterna,
o fogo eterno.

(Le silence éternel de ces espaces infinis m'effraie.)
— O que é eterno, Yayá Lindinha?
— Ingrato! é o amor que te tenho. 

Eternalidade eternite eternaltivamente
                   eternuávamos
                           eternissíssimo
A cada instante se criam novas categorias do eterno.

Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem nome
e lhe comuniquem o sentimento do efêmero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma
                                                [força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e
                                                [passageiras as obras.
Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um
                                                [mar profundo.
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos
                                                [afundamos.
É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.

Mas eu não quero ser senão eterno.
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma
                                               [essência
ou nem isso.
E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde
                                               [pousou uma sombra
e que não fique o chão nem fique a sombra
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma
                                               [esponja no caos
e entre oceanos de nada
gere um ritmo.

Carlos Drummond de Andrade - Instante




Voz: Matheus Guménin Barreto

Carlos Drummond de Andrade 
Instante

Uma semente engravidava a tarde.
Era o dia nascendo, em vez da noite.
Perdia amor seu hálito covarde,
e a vida, corcel rubro, dava um coice,

mas tão delicioso, que a ferida
no peito transtornado, aceso em festa,
acordava, gravura enlouquecida,
sobre o tempo sem caule, uma promessa.

A manhã sempre-sempre, e dociastutos
eus caçadores a correr, e as presas
num feliz entregar-se, entre soluços.

E que mais, vida eterna, me planejas?
O que se desatou num só momento
não cabe no infinito, e é fuga e vento.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Álvaro de Campos - Dobrada à moda do porto





Voz: Wagner Eduardo Coelho      


Álvaro de Campos
Dobrada à moda do porto 

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo, 
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.



Impacientaram-se comigo. 
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante. 
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.


Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo ...


(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).


Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

sábado, 29 de junho de 2013

Ferreira Gullar - A Bomba Suja


Voz: Rafael Tahan Franzoni

Ferreira Gullar
A Bomba Suja

Introduzo na poesia
A palavra diarreia.
Não pela palavra fria
Mas pelo que ela semeia.

Quem fala em flor não diz tudo.
Quem me fala em dor diz demais.
O poeta se torna mudo
sem as palavras reais.

No dicionário a palavra
é mera ideia abstrata.
Mais que palavra, diarreia
é arma que fere e mata.

Que mata mais do que faca,
mais que bala de fuzil,
homem, mulher e criança
no interior do Brasil.

Por exemplo, a diarreia,
no Rio Grande do Norte,
de cem crianças que nascem,
setenta e seis leva à morte.


É como uma bomba D
que explode dentro do homem
quando se dispara, lenta,
a espoleta da fome.

É uma bomba-relógio
(o relógio é o coração)
que enquanto o homem trabalha
vai preparando a explosão.

Bomba colocada nele
muito antes dele nascer;
que quando a vida desperta
nele, começa a bater.

Bomba colocada nele
Pelos séculos de fome
e que explode em diarreia
no corpo de quem não come.

Não é uma bomba limpa:
é uma bomba suja e mansa
que elimina sem barulho
vários milhões de crianças.

Sobretudo no nordeste
mas não apenas ali
que a fome do Piauí
se espalha de leste a oeste.

Cabe agora perguntar
quem é que faz essa fome,
quem foi que ligou a bomba
ao coração desse homem.

Quem é que rouba a esse homem
o cereal que ele planta,
quem come o arroz que ele colhe
se ele o colhe e não janta.

Quem faz café virar dólar
e faz arroz virar fome
é o mesmo que põe a bomba
suja no corpo do homem.

Mas precisamos agora
desarmar com nossas mãos
a espoleta da fome
que mata nossos irmãos.

Mas precisamos agora
deter o sabotador
que instala a bomba da fome
dentro do trabalhador.

E sobretudo é preciso
trabalhar com segurança
pra dentro de cada homem
trocar a arma de fome
pela arma da esperança.

Cecília Meireles - Canção




Voz: Matheus Guménin Barreto

Cecília Meireles 
Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar


Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
 

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
 

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
 

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

W.H. Auden - Funeral Blues



Voz: Rafael Tahan Franzoni

W.H. Auden  
Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone.
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
 

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead,
Put crépe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
 

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song,
I thought that love would last forever: I was wrong
 

The stars are not wanted now, put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.