quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Manoel de Barros - Cacimba da saúde


Voz: Rafael Tahan

Manoel de Barros
Cacimba da saúde

Descendo um trilheiro de pedras ladeado por cansanção
A gente dávamos na Cacimba
Na estrada à direita o casebre de Ignácio Rubafo, que
tinha esse nome porque se alimentava de lodo.
Aberta na grande pedra da cidade a Cacimba!
De águas milagrosas
Cheinhas de sapos.

A gente matávamos bentevi a soco.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Cecília Meireles - Ressurreição





Voz: Rafael Tahan

Cecília Meireles
Ressurreição

Não cantes, não cantes, porque vêm de longe os náufragos
vêm os presos, os tortos, os monges, os oradores, os suicidas.
Vêm as portas, de novo, e o frio das pedras, das escadas,
e, numa roupa preta, aquelas duas mãos antigas.

E uma vela de móvel chama fumosa. E os livros. E os escritos.
Não cantes. A praça cheia torna-se escura e subterrânea.
E meu nome se escuta a si mesmo, triste e falso.

Não cantes, não. Porque era a música da tua
voz que se ouvia. Sou morta recente, ainda com lágrimas.
Alguém cuspiu por distração sobre as minhas pestanas.
Por isso vi que era tão tarde.

E deixei nos meus pés ficar o sol e andarem moscas.
E dos meus dentes escorrer uma lenta saliva.
Não cantes, pois trancei o meu cabelo, agora,
e estou diante do espelho, e sei melhor que ando fugida.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Carlos Drummond de Andrade - A máquina do mundo


Voz: Rafael Tahan

Carlos Drummond de Andrade
A máquina do mundo


E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco o simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo."

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

domingo, 26 de outubro de 2014

Carlos Drummond de Andrade - Noturno à janela do apartamento


Voz: Caio Augusto Leite

Carlos Drummond de Andrade
Noturno à janela do apartamento

Silencioso cubo de treva:
um salto, e seria a morte.
Mas é apenas, sob o vento,
a integração na noite.

Nenhum pensamento de infância,
nem saudade nem vão propósito.
Somente a contemplação
de um mundo enorme e parado.

A soma da vida é nula.
Mas a vida tem tal poder:
na escuridão absoluta,
como líquido, circula.

Suicídio, riqueza, ciência...
A alma severa se interroga
e logo se cala. E não sabe
se é noite, mar ou distância.

Triste farol da Ilha Rasa.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Rainer Maria Rilke - Der Panther



Voz: Matheus Guménin Barreto
Rainer Maria Rilke
Der Panther

(Im Jardin des Plantes, Paris)

Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe
so müd geworden, daß er nichts mehr hält.
Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe
und hinter tausend Stäben keine Welt.

Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte,
der sich im allerkleinsten Kreise dreht,
ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,
in der betäubt ein großer Wille steht.

Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille
sich lautlos auf -. Dann geht ein Bild hinein,
geht durch der Glieder angespannte Stille -
und hört im Herzen auf zu sein

________________________________________

Rainer Maria Rilke
A Pantera

(Trad. Geir Campos)

(No Jardin des Plantes, Paris)

Varando a grade, a nada mais se agarra
o olhar tomado de um torpor profundo:
para ela é como se houvesse mil barras
e, atrás dessas mil barras, nenhum mundo.

Seu firme andar de passos gráceis, dentro
dum círculo talvez muito apertado,
é uma dança de força em cujo centro
ergue-se um grande anseio atordoado.

De raro em raro, só, o véu das pupilas
abre-se sem ruído — e deixa entrar
a imagem, que sobe, pelas tranqüilas
patas, ao coração, para aí ficar.

domingo, 19 de outubro de 2014

Raduan Nassar - Lavoura Arcaica - 1


Voz: Rafael Tahan

Raduan Nassar
Lavoura Arcaica


A PARTIDA


1

Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou 
violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, 
quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um 
áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre 
os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo; 
eu estava deitado no assoalho do meu quarto, numa velha pensão 
interiorana, quando meu irmão chegou pra me levar de volta; minha 
mão, pouco antes dinâmica e em dura disciplina, percorria vagarosa a 
pele molhada do meu corpo, as pontas dos meus dedos tocavam cheias 
de veneno a penugem incipiente do meu peito ainda quente; minha 
cabeça rolava entorpecida enquanto meus cabelos se deslocavam em 
grossas ondas sobre a curva úmida da fronte; deitei uma das faces 
contra o chão, mas meus olhos pouco apreenderam, sequer perderam a 
imobilidade ante o vôo fugaz dos cílios; o ruído das batidas na porta 
vinha macio, aconchegava-se despojado de sentido, o floco de paina 
insinuava-se entre as curvas sinuosas da orelha onde por instantes 
adormecia; e o ruído se repetindo, sempre macio e manso, não me 
perturbava a doce embriaguez, nem minha sonolência, nem o disperso 
e esparso torvelinho sem acolhimento; meus olhos depois viram a 
maçaneta que girava, mas ela em movimento se esquecia na retina 
como um objeto sem vida, um som sem vibração, ou um sopro escuro 
no porão da memória; foram pancadas num momento que puseram em 
sobressalto e desespero as coisas letárgicas do meu quarto; num salto 
leve e silencioso, me pus de pé, me curvando pra pegar a toalha 
estendida no chão; apertei os olhos enquanto enxugava a mão, agitei 
em seguida a cabeça pra agitar meus olhos, apanhei a camisa jogada 
na cadeira, escondi na calça meu sexo roxo e obscuro, dei logo uns 
passos e abri uma das folhas me recuando atrás dela: era meu irmão 
mais velho que estava na porta; assim que ele entrou, ficamos de 
frente um para o outro, nossos olhos parados, era um espaço de terra 
seca que nos separava, tinha susto e espanto nesse pó, mas não era uma 
descoberta, nem sei o que era, e não nos dizíamos nada, até que ele 
estendeu os braços e fechou em silêncio as mãos fortes nos meus 
ombros e nós nos olhamos e num momento preciso nossas memórias 
nos assaltaram os olhos em atropelo, e eu vi de repente seus olhos se 
molharem, e foi então que ele me abraçou, e eu senti nos seus braços o 
peso dos braços encharcados da família inteira; voltamos a nos olhar e 
eu disse "não te esperava" foi o que eu disse confuso com o desajeito 
do que dizia e cheio de receio de me deixar escapar não importava 
com o que eu fosse lá dizer, mesmo assim eu repeti "não te esperava" 
foi isso o que eu disse mais uma vez e eu senti a força poderosa da 
família desabando sobre mim como um aguaceiro pesado enquanto ele 
dizia "nós te amamos muito, nós te amamos muito' era tudo o que ele 
dizia enquanto me abraçava mais uma vez; ainda confuso, aturdido, 
mostrei-lhe a cadeira do canto, mas ele nem se mexeu e tirando o 
lenço do bolso ele disse "abotoe a camisa, André".

sábado, 18 de outubro de 2014

Jorge de Sena - Ode à Incompreensão



Voz: Rafael Tahan


Jorge de Sena
Ode à Incompreensão



De todas estas palavras não ficará, bem sei,

um eco para depois da  morte

que as disse vagarosamente pela minha boca.

Tudo quanto sonhei, quanto pensei, sofri,

ou nem sonhei ou nem pensei

ou apenas sofri de não ter sofrido tanto

como aterradamente esperara -

nenhum eco haverá de outras canções

não ditas, guardadas nos corações

alheios, ecoando abscônditas ao sopro do poeta.


Não por mim. Por tudo o que, para ecoar-se,

não encontrou eco. Por tudo o que,

para ecoar, ficou silencioso, imóvel -

– isso me dói como de ausência a música

não tocada, não ouvida, o ritmo suspenso,

eminente, destinado, isso me dói

dolorosamente, amargamente, na distância

do saber tão claro, da visão tão lúcida,

que para longe afasta o compassado ardor

das vibrações do sangue pelos corpos próximos.


Tão longe, meu amor, te quis da minha imperfeição,

da minha crueldade, desta miséria de ser por intervalos

a imensa altura para que me arrebatas

– meu palpitar de imagem à beira da alegria,

meu reflexo nas águas tranquilas da liberdade imaginada-,

tão longe, que já não meus erros regressassem

como verdade envenenando o dia a dia alheio.


Tão longe, meu amor, tão longe,

quem de tão longe alguma vez regressa?!


E quem, ó minha imagem, foi contigo?


(De mim a ti, de ti a mim,

quem de tão longe alguma vez regressa?)

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

João Cabral de Melo Neto - O Cão Sem Plumas (IV. Discurso do Capibaribe)


João Cabral de Melo Neto
O Cão Sem Plumas

Voz: Rafael Tahan

IV. Discurso do Capibaribe

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).