Voz: Rafael Tahan
Caio Augusto Leite
Repetição
dos pães
"O
que se prende à sua via, perdê-la-á; e o que perder a sua vida por meu amor,
achá-la-á" - Mateus 10: 39
Repito
não por falta do que dizer, mas para que o que foi dito continue dito. Repito
para que dure. Como se envolvesse a pedra com pedra: para que mais pedra seja.
Para que não se perca ao vento a pedra que rola a montanha. Só há lógica
naquilo que existe ao toque da mão: a ideia sempre foge. Digo a ideia para que
seja mais que ideia, seja ato. O ato se concreta no espaço. É no espaço que
tudo é. Deus é o espaço em que habito. Digo Deus para que ele seja. Se não
fosse o que digo, nada poderia ser. E nada poderia dizer mais. É um círculo
fatal. E perfeito. Enquanto falo, crio, enquanto crio, falo. E tudo que falo se
cria, e tudo que é criado é falado depois por mim. Num jogo de vozes ativas e
passivas que se modulam em verbos na frase cíclica. Eu amo, pois há amor, e
tendo amor posso ser amado. Por isso repito. Repiso os passos que já pisei para
que continue a existir caminho: para os que vêm depois de mim. A estrada
permanece. Como já permaneceu antes por alguém ter pisado nela antes de eu
chegar. Esse pequeno parágrafo é uma pedra que se retirou de um grande monte.
Uma lasca do que é eterno. É a parte de um todo profundo e sólido. É um fiapo
do manto do Deus impenetrável, intocável, invisível. Essa
pedra-palavra-parágrafo. Aquela que jogamos na superfície lisa de um lago e que
se espalha em ondas concêntricas: tudo é concêntrico. Viemos do pó da pedra, ao
pó da pedra voltaremos. Por mais que se fuja de casa. O centro das ondas que se
espalham, cada vez mais distante do ponto em que a pedra afundou. Mas até essas
ondas se reduzem e retornam ao ponto mínimo de começo. Repito para que caia a
pedra. Essa jornada é sempre de mim para mim mesmo. No fim, a busca é daquilo
mesmo que já estava. Então não é busca. É saudade. Sentindo saudade do que foi
deixado, sabemos que aquilo deixado era o que se buscava. Procuro a minha mais
última saudade: naquele mínimo coração está minha vida toda condensada.
Enquanto não acho repito a pedra que me faz onda no lago eterno. Sobre as águas
paira o Grande Espírito. Tenho fé no recomeço de mim. Quando eu estiver o mais
longe que puder daqui, terei atravessado a película de meu rosto; chegando ao
que me é alheio, chegarei ao cheiro singular do suor em minhas axilas, meu
cheiro de homem cansado. Então retornarei, encolhendo feito as ondas do lago.
Não triste. Não resignado. Mas feliz. Por ter perdido, encontrarei. Por ter
deixado, terei. De novo menino no centro perfeito onde só cabe a palavra Eu.
Até lá a vida seria ânsia. Náusea. Inquieto que sou. Preciso lançar a pedra com
força e dor. A maior pedra que puder. Para que me lancem as ondas para o mais
distante de meu próprio pensamento. Por isso repito. Um dia um Homem repetiu os
pães e os peixes e matou a fome repartida por tantos. Repito. Repito. Repito.
Repito para matar a grande fome. Repito até que perca meu nome o significado.
Até que seja vazio um nome. Até que suma toda água do tempo. Para que depois eu
volte a mim com toda força e me preencha somente daquilo que me é.
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