quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Caio Augusto Leite - Repetição dos pães


Voz: Rafael Tahan


Caio Augusto Leite
Repetição dos pães


"O que se prende à sua via, perdê-la-á; e o que perder a sua vida por meu amor, achá-la-á" - Mateus 10: 39



Repito não por falta do que dizer, mas para que o que foi dito continue dito. Repito para que dure. Como se envolvesse a pedra com pedra: para que mais pedra seja. Para que não se perca ao vento a pedra que rola a montanha. Só há lógica naquilo que existe ao toque da mão: a ideia sempre foge. Digo a ideia para que seja mais que ideia, seja ato. O ato se concreta no espaço. É no espaço que tudo é. Deus é o espaço em que habito. Digo Deus para que ele seja. Se não fosse o que digo, nada poderia ser. E nada poderia dizer mais. É um círculo fatal. E perfeito. Enquanto falo, crio, enquanto crio, falo. E tudo que falo se cria, e tudo que é criado é falado depois por mim. Num jogo de vozes ativas e passivas que se modulam em verbos na frase cíclica. Eu amo, pois há amor, e tendo amor posso ser amado. Por isso repito. Repiso os passos que já pisei para que continue a existir caminho: para os que vêm depois de mim. A estrada permanece. Como já permaneceu antes por alguém ter pisado nela antes de eu chegar. Esse pequeno parágrafo é uma pedra que se retirou de um grande monte. Uma lasca do que é eterno. É a parte de um todo profundo e sólido. É um fiapo do manto do Deus impenetrável, intocável, invisível. Essa pedra-palavra-parágrafo. Aquela que jogamos na superfície lisa de um lago e que se espalha em ondas concêntricas: tudo é concêntrico. Viemos do pó da pedra, ao pó da pedra voltaremos. Por mais que se fuja de casa. O centro das ondas que se espalham, cada vez mais distante do ponto em que a pedra afundou. Mas até essas ondas se reduzem e retornam ao ponto mínimo de começo. Repito para que caia a pedra. Essa jornada é sempre de mim para mim mesmo. No fim, a busca é daquilo mesmo que já estava. Então não é busca. É saudade. Sentindo saudade do que foi deixado, sabemos que aquilo deixado era o que se buscava. Procuro a minha mais última saudade: naquele mínimo coração está minha vida toda condensada. Enquanto não acho repito a pedra que me faz onda no lago eterno. Sobre as águas paira o Grande Espírito. Tenho fé no recomeço de mim. Quando eu estiver o mais longe que puder daqui, terei atravessado a película de meu rosto; chegando ao que me é alheio, chegarei ao cheiro singular do suor em minhas axilas, meu cheiro de homem cansado. Então retornarei, encolhendo feito as ondas do lago. Não triste. Não resignado. Mas feliz. Por ter perdido, encontrarei. Por ter deixado, terei. De novo menino no centro perfeito onde só cabe a palavra Eu. Até lá a vida seria ânsia. Náusea. Inquieto que sou. Preciso lançar a pedra com força e dor. A maior pedra que puder. Para que me lancem as ondas para o mais distante de meu próprio pensamento. Por isso repito. Um dia um Homem repetiu os pães e os peixes e matou a fome repartida por tantos. Repito. Repito. Repito. Repito para matar a grande fome. Repito até que perca meu nome o significado. Até que seja vazio um nome. Até que suma toda água do tempo. Para que depois eu volte a mim com toda força e me preencha somente daquilo que me é.

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