Voz: Rafael Tahan
Raduan Nassar
Lavoura Arcaica
A PARTIDA
1
Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou
violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo,
quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um
áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre
os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo;
eu estava deitado no assoalho do meu quarto, numa velha pensão
interiorana, quando meu irmão chegou pra me levar de volta; minha
mão, pouco antes dinâmica e em dura disciplina, percorria vagarosa a
pele molhada do meu corpo, as pontas dos meus dedos tocavam cheias
de veneno a penugem incipiente do meu peito ainda quente; minha
cabeça rolava entorpecida enquanto meus cabelos se deslocavam em
grossas ondas sobre a curva úmida da fronte; deitei uma das faces
contra o chão, mas meus olhos pouco apreenderam, sequer perderam a
imobilidade ante o vôo fugaz dos cílios; o ruído das batidas na porta
vinha macio, aconchegava-se despojado de sentido, o floco de paina
insinuava-se entre as curvas sinuosas da orelha onde por instantes
adormecia; e o ruído se repetindo, sempre macio e manso, não me
perturbava a doce embriaguez, nem minha sonolência, nem o disperso
e esparso torvelinho sem acolhimento; meus olhos depois viram a
maçaneta que girava, mas ela em movimento se esquecia na retina
como um objeto sem vida, um som sem vibração, ou um sopro escuro
no porão da memória; foram pancadas num momento que puseram em
sobressalto e desespero as coisas letárgicas do meu quarto; num salto
leve e silencioso, me pus de pé, me curvando pra pegar a toalha
estendida no chão; apertei os olhos enquanto enxugava a mão, agitei
em seguida a cabeça pra agitar meus olhos, apanhei a camisa jogada
na cadeira, escondi na calça meu sexo roxo e obscuro, dei logo uns
passos e abri uma das folhas me recuando atrás dela: era meu irmão
mais velho que estava na porta; assim que ele entrou, ficamos de
frente um para o outro, nossos olhos parados, era um espaço de terra
seca que nos separava, tinha susto e espanto nesse pó, mas não era uma
descoberta, nem sei o que era, e não nos dizíamos nada, até que ele
estendeu os braços e fechou em silêncio as mãos fortes nos meus
ombros e nós nos olhamos e num momento preciso nossas memórias
nos assaltaram os olhos em atropelo, e eu vi de repente seus olhos se
molharem, e foi então que ele me abraçou, e eu senti nos seus braços o
peso dos braços encharcados da família inteira; voltamos a nos olhar e
eu disse "não te esperava" foi o que eu disse confuso com o desajeito
do que dizia e cheio de receio de me deixar escapar não importava
com o que eu fosse lá dizer, mesmo assim eu repeti "não te esperava"
foi isso o que eu disse mais uma vez e eu senti a força poderosa da
família desabando sobre mim como um aguaceiro pesado enquanto ele
dizia "nós te amamos muito, nós te amamos muito' era tudo o que ele
dizia enquanto me abraçava mais uma vez; ainda confuso, aturdido,
mostrei-lhe a cadeira do canto, mas ele nem se mexeu e tirando o
lenço do bolso ele disse "abotoe a camisa, André".
Nenhum comentário:
Postar um comentário