sábado, 18 de outubro de 2014

Jorge de Sena - Ode à Incompreensão



Voz: Rafael Tahan


Jorge de Sena
Ode à Incompreensão



De todas estas palavras não ficará, bem sei,

um eco para depois da  morte

que as disse vagarosamente pela minha boca.

Tudo quanto sonhei, quanto pensei, sofri,

ou nem sonhei ou nem pensei

ou apenas sofri de não ter sofrido tanto

como aterradamente esperara -

nenhum eco haverá de outras canções

não ditas, guardadas nos corações

alheios, ecoando abscônditas ao sopro do poeta.


Não por mim. Por tudo o que, para ecoar-se,

não encontrou eco. Por tudo o que,

para ecoar, ficou silencioso, imóvel -

– isso me dói como de ausência a música

não tocada, não ouvida, o ritmo suspenso,

eminente, destinado, isso me dói

dolorosamente, amargamente, na distância

do saber tão claro, da visão tão lúcida,

que para longe afasta o compassado ardor

das vibrações do sangue pelos corpos próximos.


Tão longe, meu amor, te quis da minha imperfeição,

da minha crueldade, desta miséria de ser por intervalos

a imensa altura para que me arrebatas

– meu palpitar de imagem à beira da alegria,

meu reflexo nas águas tranquilas da liberdade imaginada-,

tão longe, que já não meus erros regressassem

como verdade envenenando o dia a dia alheio.


Tão longe, meu amor, tão longe,

quem de tão longe alguma vez regressa?!


E quem, ó minha imagem, foi contigo?


(De mim a ti, de ti a mim,

quem de tão longe alguma vez regressa?)

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